Epígrafe

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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Artigo

A doença moral

João Perles



Não pode haver mérito ou heroísmo nos atos de covardia e de desonestidade. Mas quando o covarde pratica uma perversidade e se acha herói, então estamos diante de um falastrão doente. Pode ser uma doença psiquiátrica ou uma doença moral.
Ao portador de transtorno psiquiátrico, é justo e humano que se dê tratamento médico adequado. É aceitável que convivamos com nossos descontroles e sejamos tolerantes com os distúrbios psíquicos dos outros, por mais desconforto que isto possa causar.
Mas a doença moral agride, corrói, contamina e putrifica as bases sociais comunitárias. Trata-se de uma anomalia que rompe com os contratos sociais às quais associamos normas de convívio civilizatório. Eis algumas das razões pelas quais não podemos tolerar a desonestidade e a covardia.
O imoral escroto despe-se de quaisquer sentimentos solidário e coletivo. O limite de sua coragem ancora-se na perversidade gratuita. Há no imoral um ardente desejo de regozijar-se com o próprio sadismo social. Ele dorme sorridente, mas não é por que tem a consciência tranquila e sim porque lhe é maravilhosa a ideia de já ter planejado outro pacote de maldades para o dia seguinte.
É por isso que eu acredito que, na última segunda-feira, dia 08 de agosto, ao terminar a sessão da câmara municipal, a maioria absoluta dos vereadores de Pereira Barreto foi para casa e dormiu o sono dos justos. Numa sessão relativamente rápida, eles aprovaram aumento de salário para os agentes políticos para a próxima legislatura. Dobraram o valor do salário de vereador, quase duplicaram o valor do salário para o próximo prefeito e, ainda, de quebra, elevou os subsídios dos secretários municipais, outra vez.
Foram para suas casas, olharam descaradamente para os filhos, esposas, maridos. Mal conseguiam conter a verve circulando pela corrente sanguínea. Sentiram-se maravilhados depois daquela sessão edificante, deixando-se divagar, levar-se pela imagem de um próximo mandado com os bolsos ainda mais recheados de dinheiro, aumentando a possibilidade de jogar ao povo as migalhas do poder. Ah, como é bom enxergar antecipadamente um novo mandato, tendo como cenário um exército de pobres ajoelhados recolhendo grãos podres, restos de poder, sobras da volúpia doentia.
Entraram madrugada adentro sentindo o prazer de nascer despido de consciência, de escrúpulos, de humanidade. Vencidos pelo sono, sonharam com a delícia de poder dar de ombros para a maltrapilha saúde pública, para o estorvo do desempregado, para as vítimas da violência, para todos que labutam sob o escaldante sol tropical e não sentir nada. Puxa, que genética maravilhosa esta que esvazia alguns homens de toda e qualquer sensibilidade. Nossa! Como é bom ser assim, uma pessoa dotada de culhões suficientes para mandar tudo para o diabo que carregue. Afinal, não tem sido fácil aguentar a mendicância da população mais carente da cidade. Ter que sorrir falsamente o tempo todo. Sentir cheiro de pessoas que pertencem a “raças” diferentes, que professam fé religiosa com a qual não coadunam, que pregam uma justiça que eles fingem defender, que enchem o saco com discursos filosóficos que não resultam em abocanhar um quinhão a mais de erário. É, depois disso tudo, eles bem que merecem legislar em causa própria. O resto? A patuléia recolhe no chão, como tem sido até agora.

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