Epígrafe

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Estratificação salarial

Estratificação salarial

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Artigo

Uma última palavra

João Perles

O último texto do ano poderia seguir a tendência festiva, entrar no clima do Natal com uma mensagem de fé, esperança e alguma dose de hipocrisia. Mas aos 47 anos de idade, com a experiência de quem quase sempre olhou para a história de Pereira Barreto pela ótica da criticidade, me sinto bem à vontade para afirmar que a cidade tem tudo para continuar dando errado nos planos político, econômico e social.
Para Pereira Barreto, acredito que amanhã será pior que hoje, o ano que vem será pior que 2011 e 2013 tende a uma degeneração ética e moral ainda maior que a vivida nos últimos anos.
Quando o Elege Notícias surgiu em 2009, suas publicações se limitavam a ensaios analíticos da história do município, com abordagens socioeconômicas a fim de que servisse como instrumento para se pensar o desenvolvimento da cidade. Uma tentativa de instigar um mínimo de comportamento inteligente e metodológico. Não deu certo. Foram mais de dois anos de estudo praticamente jogados fora.
Pereira Barreto é uma cidade onde tudo se estagnou. Há uma saturação total em seu aspecto socioeconômico: terminada a década de 1970, o número de habitantes continuou o mesmo; a matriz econômica, baseada na produção agropecuária, não conseguiu modificar substancialmente as condições de vida da parcela mais pobre da população; os recursos financeiros provenientes da geração de energia hidrelétrica apenas robusteceram os bolsos da classe política; o mito do turismo, tantas vezes aqui debatido, revelou-se definitivamente como a grande panaceia que sempre foi; e o comércio, salvo meia dúzia de exceções, capenga numa sobrevida melancólica.
Não existem mistérios. A realidade em que vivemos hoje encontra explicações nos elementos constitutivos da história do município. Sem compreender os mecanismos que amarram os elementos históricos estamos fadados a não produzir o debate necessário que rearticule o futuro em moldes diferentes dos que já vivenciamos nas últimas décadas.
Quando a classe política local abre a boca ou se aventura a escrever algo por suas linhas tortas, ingênuas e fajutas, me sinto diante de um bando de retardados. Podem ser astutos para roubar o dinheiro público, mas possuem deficiências intelectuais gravíssimas.
A comunidade pereira-barretense, em geral, tem se demonstrado muito complacente com a classe política. Essa permissividade da população gera monstrengos, entre os quais, os grupelhos que se denominam partidos políticos, mas que não ultrapassam o nível de gangues organizadas para dilapidar o patrimônio público e manter a cidade mergulhada na pobreza.

Abaixo, o mais completo estudo socioeconômico realizado pelo Elege Notícias. (Clique na imagem para ampliar)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Artigo

E o troféu vai para o...Cene!
João Perles


(Clique na imagem para ampliar)


Nos últimos anos, o único jornal local que eu consegui ler todas as páginas foi feito pelos alunos da escola Coronel Francisco Schmidt, o Cene, de Pereira Barreto. Foi feito para uma cidade em que inexiste serviço de imprensa. Isso mesmo, inexiste imprensa em Pereira Barreto.
O jornal escolar, denominado Leitura em Foco, envolveu os alunos com a temática da produção de açúcar e álcool combustível (etanol). Nele, se discutiu e noticiou as mazelas sociais e ambientais provenientes da indústria sucroalcooleira no município: degradação da saúde do boia-fria, desmatamento irracional e ameaça à biodiversidade já bastante sofrida.
A produção do etanol, importante fonte de combustível renovável, é um ramo industrial essencial ao país porque gera emprego, colabora com a redução na emissão de gás carbônico etc. Mas desde que a Santa Adélia se instalou em Pereira Barreto, o descompromisso social e ambiental vem piorando ano a ano. Em algumas fazendas, a brutalidade da empresa se faz sentir até em ordem cultural. Quando passam as máquinas sobre casas de colonos, apagam parte da história do município. Quando aterram lagoas (e já aterraram várias), devastam importantes ecossistemas, colocando a perder toda a biodiversidade ali existente.
E, ao contrário das expectativas iniciais, a instalação da usina não representou uma revolução na renda local. Aqui mesmo, neste site, logo abaixo, encontram-se publicados gráficos relativos à estratificação de renda individual da população, é olhar e constatar o abismo abissal entre pobres e ricos.
Por fim, cabe salientar que existem alguns equívocos conceituais no jornal feito pelos escolares, mas equívocos conceituais ocorrem até mesmo nas ditas publicações especializadas, feitas por pessoas do ramo. O mais importante é que terminei a leitura da edição desejando que os estudantes façam mais jornais e dê um alento à sensação de aridez que carcome os meios de comunicação local.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Artigo

Tivessem vergonha na cara, os vereadores de Pereira Barreto teriam pedido renúncia coletiva depois da sessão ordinária de ontem, dia 21 de novembro de 2011. Uma sessão que tem tudo para entrar para a história do Legislativo local.
Elvis Roberto da Silva, funcionário público municipal que exerce função de coletor de lixo, fez uso da chamada “tribuna livre”, que por sinal tem sido muito pouco livre, e fez aquilo que a classe política local covarde não teve a coragem de fazer, criticou duramente o processo de terceirização de limpeza pública da cidade e terminou o discurso envergonhando os vereadores e deixando uma boa parcela da população constrangida: desafiou o prefeito municipal para um debate público sobre “modelo de gestão”.
Leia alguns trechos da fala do servidor:
"É preciso esclarecer que a estrutura de coleta de lixo da prefeitura, apesar de sucateada pelas últimas administrações, encontra-se instalada e continuará tendo custo aos cofres públicos e que o valor a ser pago a uma empresa particular representará um custo adicional ao bolso do contribuinte e será a população em geral quem vai pagar pelos 650 mil a mais que serão desembolsados pelo erário. [...] Temos visto, desde o início desta administração, o quanto o servidor público vem sendo desprezado, tratado como um inimigo a ser abatido a todo custo. Os ataques aos direitos dos servidores têm sido constantes, sem trégua, porque são vistos pelo prefeito como pessoas imprestáveis, incompetentes e perdulários. Mas perdulário mesmo é o atual modelo de administração que vem substituindo os servidores concursados por cargos comissionados, mirins e estagiários. [...] E ainda se fala de boca cheia em gestão pública. Gestão pra cá, gestão pra lá, sempre utilizando os meios de comunicação aos quais os servidores e a população em geral não têm acesso e por isso não pode se defender.
Mas eu tenho uma proposta mais democrática para se discutir modelo de gestão pública. Eu, Elvis Roberto da Silva, coletor de lixo, desafio o prefeito para um debate público sobre modelo de gestão. Desafio o prefeito a agendar um dia e um horário nesta câmara municipal, com antecedência para que possamos convidar a população, porque quero provar junto a comunidade local que isso que se propaga na cidade como modelo de gestão não passa de um embuste. Trata-se de uma administração conduzida por meio de pesadas e polpudas consultorias e que, agora, querem também rechear de terceirizações irresponsáveis."

sexta-feira, 18 de novembro de 2011




Acho oportuno iniciar este artigo mencionando um conceito do filósofo Homero Santiago, que estudou no Cene de Pereira Barreto e hoje é professor na Faculdade de Filosofia da USP, para quem “o alicerce é aquilo que subjaz; é aquilo que não enxergamos, mas dá sustentação ao visível, ao aparente”. Vamos tentar aqui hoje enxergar como o aparente, o visível de Pereira Barreto, encobre-se de névoa e o quanto nossos alicerces encontram-se abalados.
Comecemos por duas constatações: perdemos a origem étnica; e forjamos uma elite política econômica local de modo ímpar na história do município.
Os amarelos somam 1.145 pessoas dentre os 24.962 habitantes de Pereira Barreto, representando cerca de 5% do total, razão pela qual, as luminárias instaladas nas avenidas Benedito Jorge Coelho e Jonas Alves de Melo, imitando as do bairro Liberdade, da capital Paulista, pouco representam às gerações mais novas de moradores.
A situação é pior quando levamos em conta o fato de que o debate histórico sobre a fundação da cidade quase não ocorre e, quanto acontece, é propositadamente eivado de equívocos e desinformações.
A renda dos habitantes, de maneira geral, é muito baixa. Os salários da classe política sobem aos saltos e já remetem à existência de uma elite econômica. Atualmente, 87% da população pereira-barretense encontra-se em idade produtiva, destes, 46%, ou seja, 9.993 pessoas têm rendimento mensal que vai de ¼ a 2 salários mínimos (R$ 136,25 a R$ 1.090,00). Já em relação aos vereadores, na próxima gestão passarão a receber “módicos” R$ 6.000,00 e ingressarão na elite econômica local, constituída por 76 pessoas (isto mesmo, você entendeu perfeitamente bem, 76 indivíduos) com renda que vai de mais de 10 a 15 salários mínimos mensais, uma situação idêntica a dos secretários municipais.
Mas a coisa não para por aí. O próximo prefeito será ainda mais elitista que os vereadores, passará a pertencer ao seleto clube dos 18 (isto mesmo, 18) moradores com renda mensal superior a 20 salários mínimos, cujo vencimento será de R$ 14.000,00.
O contraste social é massacrante. Das 21.745 pessoas em idade de trabalho, 7.644 se declararam sem rendimento algum no ano de 2010. São 2.653 homens e 4.991 mulheres desempregados (vivem de “bico” ou são donas-de-casa), totalizando 35% daqueles com idade produtiva. Haja programa social para atender tanta gente. Ainda que boa parte faça “bicos” profissionais para sobreviver, trata-se de uma situação que deveria fazer a classe política corar de vergonha, mas infelizmente, vergonha não é um elemento apreciado por crápulas, verdadeiros ladrões do dinheiro público que vêm tomando de assalto o tesouro municipal.

Veja abaixo estratificação salarial da população de Pereira Barreto e compare com a da classe política.



National Geographic: Foto do dia