João Perles

Numa das mais belas passagens bíblicas encontra-se um pronunciamento de Cristo em que ele profetiza não estar no mundo a serviço da paz entre os homens, mas sim para entregar-lhes a espada, simbolizando, aqui, a discórdia.
Antigo, mas atual, o discurso de Cristo deveria ser tomado como instrumento pedagógico pela classe política e lideranças locais. Não se trata, é claro, da discórdia enquanto valor que remete a qualquer tipo de intolerância ou fundamentalismo, mas sim, àquela que arranca o indivíduo do comodismo. Discórdia, assim vista, limita-se ao aparato da controvérsia, ou seja, atividade cerebral com todas as sinapses, enquanto ainda é possível constatar a existência de cérebro.
Pereira Barreto é hoje uma cidade de consenso. Trata-se, evidentemente, de um consenso urdido e ungido no nível mais rasteiro e mesquinho possível, razão pela qual prevalece a mediocridade desmedida como base de uma sociedade refratária à possibilidade de fomentar o necessário debate intelectual.
Mas, ao contrário do que possa parecer, esse processo generalizado de asfixia do pensamento, não se deu naturalmente. No mundo financista em que vivemos, não são as ingenuidades que moldam as unanimidades políticas, mas sim o canhoto dos talões de cheque. Claro que existem aqueles que se alimenta do melhor leite e outros que apenas lambem as migalhas, porque, enfim, nos porões onde se firmam os acordos, há que se respeitar as hierarquias, visto que no universo das hienas, assim como no mundos dos homens, todos são iguais, porém, sempre existem aqueles que são mais iguais que os outros.
As dilapidações públicas consensuais são sempre mais graves. Elas não permitem que circulem outros discursos por entre os meandros do discurso oficial. Prevalece sempre uma fala oficial que visa causar bem-estar social. Nessa fala, todos os problemas se resolvem e o cidadão passa a viver feliz. Para desespero de quem ainda ousa pensar, trata-se de uma ação sistemática e orquestrada a construir uma paisagem de desolação onde não mais existe espaço para a filosofia, à ciência ou à espada.


Número de sacolinhas plásticas consumidas pela
















